ATINJ – Documento de trabalho
Junho 2007
I. Apresentação
A ATINJ (Associação de Teatro para a Infância e Juventude) foi criada com o objectivo de reunir os artistas e grupos de teatro que se dedicam exclusivamente à produção de espectáculos para os públicos infanto-juvenis; e os que integram nas suas actividades a produção regular de espectáculos para aqueles públicos.
Em actividade desde 2005, a ATINJ foi formalizada em 2 de Janeiro, e conta com os mais importantes representantes do teatro para a infância e juventude.
II. Objectivos e princípios
No centro das preocupações da ATINJ estão quatro grandes questões:
1. A defesa do desenvolvimento de actividades teatrais de reconhecida qualidade artística, isto é, que não derivem para a instrumentalização de um segmento de público maioritariamente escolar e pré-escolar, que, genericamente, apresenta duas condições: a) encontra-se numa fase de formação e aprendizagem, não dispondo, ou dispondo apenas parcialmente, de autonomia de escolha e de apreciação; b) é socialmente plural, seja em termos etários, seja em termos das condições propriamente socioeconómicas e culturais que veicula.
Neste sentido, torna-se fundamental a tomada de consciência de que a formação do gosto crítico e, portanto, exigente, dependerá em grande medida dos trajectos de contacto com a arte iniciados precocemente. O teatro dirigido à infância e juventude deve, assim, investir no contacto entre as (suas) linguagens artísticas e as linguagens propriamente pedagógicas e de mediação sociocultural dos pais, dos professores, dos educadores e dos restantes técnicos de serviços sociais e educativos – sem confundir os três planos (artístico, pedagógico e sociocultural) e sem ceder a utilitarismos nada dignificantes para qualquer deles.
2. O reconhecimento público de que não se trata de um segmento menor ou fácil, mas de um teatro de criação, e, portanto, de exploração de linguagens artísticas e de estéticas inovadoras.
Deve combater-se a ideia, relativamente generalizada, de que este teatro se dirige a um público pouco competente e, sobretudo, pré-garantido – em particular dadas as mudanças recentes nos modelos familiares, na educação escolar e pré-escolar, nas principais instituições culturais e nalgumas instituições de serviço social. O aumento das actividades artísticas como programação extra-curricular das escolas; a obrigatoriedade dos serviços educativos nas bibliotecas, nos museus e nos teatros municipais e nacionais (entre outros); e o crescente recurso às actividades artísticas (em especial ao teatro) como instrumento de inserção social e desenvolvimento pessoal (incluindo as preocupações educativas e de ocupação de tempos livres pelas famílias com filhos menores) – eis alguns exemplos que, no entender da ATINJ, deverão concorrer para o incremento dos níveis de exigência e profissionalização, e não o contrário.
A subalternização do valor da oferta teatral para crianças e jovens tem, paradoxalmente, convivido com o aumento da sua procura, deslocando o valor artístico para o valor de consumo indiferenciado de lazer e entretenimento.
3. A dinamização da criação teatral para a infância e juventude, no sentido de ser possível responder condignamente ao aumento e à diversificação das procuras assinaladas nos pontos anteriores.
Esta questão, porém, não pode ser dissociada das pressões financeiras que impendem, quer sobre os criadores, quer sobre os programadores e outros intermediários (pais, professores, educadores, técnicos de serviços educativos e sociais – incluindo autárquicos). O carácter, agora em sentido lato, social (próximo do de serviço ao público) do teatro para a infância e juventude tem-se traduzido na subalternização da assistência pública directa e indirecta. A primeira refere-se aos apoios públicos à criação, à divulgação e à itinerância, que estão longe de reflectir os custos de produção (formação incluída) e circulação. A indirecta prende-se com a assistência técnica e financeira às próprias instituições intermediárias, constrangindo a selecções de espectáculos e de actividades frequentemente improvisadas e não profissionais – por falta de recursos financeiros, mas também por falta de competências culturais e técnicas. A existência de um "bilhete social", que, no caso do teatro para a infância e juventude, corresponde a uma percentagem superior à praticada no teatro para adultos (à falta de melhor designação) acaba por estrangular, quer a actividade propriamente dita, quer a qualidade oferecida – relegando para níveis excepcionalmente simbólicos (quer dizer baixos) os retornos de bilheteira.
Esta situação vem-se reproduzindo sem que, se verifique, sequer, uma contrapartida de consciência social do valor daquele bilhete, enquanto tradução do trabalho estruturante junto dos públicos específicos do teatro para a infância e juventude. A existência de uma plataforma associativa afigura-se fundamental para fomentar o diálogo e a reflexão internas, assim como a afirmação junto do público em geral, das instituições sociais e culturais, e, finalmente, dos poderes públicos (locais e central).
4. Criar condições para o desenvolvimento de redes territorializadas (nos planos nacional, regional e internacional) de intercâmbio artístico, de visibilidade e de itinerância.
Nesta questão, a ATINJ propõe-se funcionar como interface e pivot de sinergias capazes de potenciar o interconhecimento e o diálogo artístico e social, que são condições essenciais para assegurar a qualidade e a diversidade artísticas (do lado da oferta e do lado da procura). O âmbito destes objectivos, naturalmente, é, não apenas o território nacional, mas (hoje incontornavelmente) o internacional.
É urgente a criação de redes pluri-territoriais de apresentação e representação, mas também de desenvolvimento de complementaridades e contrastes (de linguagens artísticas, de recursos estruturais, de públicos). Portugal é um país de pequena dimensão, porém excessivamente centralizado, justificando desde logo a articulação entre uma rede nacional e redes regionais (apresentando-se, neste patamar, as autarquias como parceiros privilegiados). Noutro patamar, os territórios ibérico (onde as relações entre a Região Norte e a Galiza são exemplares) e mediterrânico devem ser sistematicamente explorados (dinamizando as tensões positivas decorrentes das afinidades culturais existentes). Em terceiro lugar (a ordem não é, evidentemente, hierárquica), a Europa, em termos de regiões e como território cultural amplo, justifica o investimento em sinergias activas de visibilidade e troca (a participação na última Biennale de Lyon pode constituir um exemplo, embora o alargamento da União proporcione contactos substantivamente diferentes). Finalmente, o espaço lusófono constitui, para a ATINJ, uma aposta privilegiada de intercâmbio e circulação artísticas. É em articulação, e não em sobreposição, que estes tipos de redes territoriais se devem dinamizar.